8 de maio de 2009

Sugestão de leitura: Trabalho assalariado e capital & Salário, preço e lucro

CATEGORIA: CLÁSSICOS

TITULO DO LIVRO: Trabalho assalariado e capital & Salário, preço e lucro

ISBN: 85-87394-85-1

AUTOR: Karl Marx

Número de Páginas: 144

Dimensões: 21cm x 14cm x 0,8cm

SINOPSE DO LIVRO

Os dois textos foram escritos para serem estudados pela militância operária, com o objetivo de formação da consciência e organização da classe. Neles, Marx trabalha conceitos fundamentais da economia política, de uma forma mais didática do que o fez em O Capital. Nesses textos, encontramos o Marx formador, preocupado didaticamente com o fato de que a militância operária pudesse entender, na teoria e na prática, os mecanismos de exploração desenvolvidos pelo capital. Mecanismos que explicitam o fato de que a relação capital-trabalho não era (é) apenas uma questão de diferença de classes ou de ódio de classes. Era (é), isto sim, um mecanismo lógico de exploração dos que trabalhavam e vendiam sua força de trabalho recebendo apenas o salário e deixando a riqueza produzida para seus patrões.
Marx é um defensor permanente da necessidade de estudar e compreender exatamente como acontece essa opressão e exploração em cada momento histórico, a partir das bases materiais concretas da sociedade.

Livro adotado em cursos de Economia, Ciências Sociais e Políticas etc.

http://www.expressaopopular.com.br/loja/produtos_descricao.asp?lang=pt_BR&codigo_produto=219

7 de maio de 2009

Sobre o bloqueio não se disse uma palavra


Por Fidel Castro

O governo dos EUA anunciou, através da CNN, que esta semana Obama visitará o México, iniciando sua viagem rumo a Puerto España España (Port of Spain, capital de Trinidad e Tobago), onde estará durante quatro dias para participar na Cúpula das Américas. Anunciou o abrandamento de algumas restrições odiosas impostas por Bush aos cubanos residentes nos Estados Unidos para visitar seus familiares em Cuba. Quando se questionou se tais privilégios se aplicariam a outros americanos, a resposta foi que eles não estavam autorizados.
Do bloqueio, que é a mais cruel das medidas, não se disse uma palavra. Assim se chama de forma piedosa o que é na verdade uma medida genocida. Os danos (causados pelo bloqueio) não se medem só por seus efeitos econômicos. Constantemente custam vidas humanas e causam sofrimentos dolorosos a nossos cidadãos. Vários equipamentos de diagnóstico e remédios vitais não são acessíveis para os nossos pacientes, mesmo que venham da Europa, do Japão ou de qualquer outro país, se utilizarem determinados componentes ou programas dos Estados Unidos.

As restrições relacionadas à Cuba devem ser aplicadas pelas empresas dos Estados Unidos que produzem bens ou prestam serviços em qualquer parte do mundo por causa da extraterritorialidade. O influente senador republicano Richard Lugar, outros de seu partido com o mesmo título no Congresso, e um outro número significativo de senadores democratas são a favor de acabar com o bloqueio. Estão criadas as condições para que Obama empregue seu talento em uma política construtiva que ponha fim à que tem fracassado durante quase meio século.
Por outro lado, nosso país, que tem resistido e está disposto a resistir quanto for necessário, não culpa Obama pelas atrocidades cometidas por outros governos dos EUA. Tampouco questiona sua sinceridade e seus desejos de mudar a política e a imagem dos Estados Unidos. Compreende que ele lutou uma dura batalha para ser eleito, considerando os preconceitos de centenas de anos.

Com base nisto, o presidente do Conselho Estadual de Cuba expressou sua disposição em dialogar com Obama e, com base no estrito respeito à soberania, normalizar as relaciones com os Estados Unidos. Às 14h30, o chefe de Interesses de Cuba em Washington, Jorge Bolaños, foi citado pelo subsecretário de Estado Thomas Shannon, no Departamento de Estado. Nada do que ele falou foi diferente do havia sido mostrado pela CNN.
Às 15h15, teve início uma grande coletiva de imprensa. A essência do que foi dito lá está contida nas palavras do conselheiro presidencial para a América Latina, Dan Restrepo, que afirmou:

“Hoje o presidente Obama ordenou que sejam tomadas certas medidas, certos passos para estender a mão ao povo cubano, para apoiar seu desejo de viver com respeito aos direitos humanos e para poder determinar seu próprio destino e o destino de seu país. O presidente deu instruções aos secretários de Estado, Comércio e Tesouro para iniciar as ações necessárias a fim de eliminar todas as restrições sobre os indivíduos para poderem visitar seus familiares na ilha e enviar remessas de dinheiro. Ele também os instruiu a tomar medidas para permitir o livre fluxo de informação entre o povo cubano e os quem estão em Cuba e no resto mundo, e para facilitar a entrega de recursos humanitários enviados diretamente ao povo cubano. Ao tomar essas medidas para ajudar a reduzir a distância entre famílias cubanas divididas e promover o livre fluxo de informação e de artigos de ajuda humanitária para o povo cubano, o presidente Obama se esforça para cumprir os objetivos estabelecidos durante a campanha e desde que assumiu o cargo. Todos aqueles que crêem nos valores democráticos básicos querem uma Cuba que respeite os direitos humanos, políticos, econômicos, básicos, de todo o seu povo. O presidente Obama considera que estas medidas ajudarão a tornar esse objetivo realidade. O presidente incentiva todos os que compartilham esta vontade a permanecerem comprometidos com seu firme apoio ao povo cubano. Obrigado”

Ao finalizar a conferência o assessor confessou com franqueza: “Tudo isso é pela liberdade de Cuba”. Cuba não aplaude as erroneamente chamadas Cúpulas das Américas, onde os nossos países não discutem em igualdade de condições. Se serviram para algo, foi para fazer análises críticas de políticas que dividem nossos povos, saqueiam nossos recursos e impõem obstáculos ao nosso desenvolvimento Agora só falta Obama persuadir todos os presidentes latinoamericanos que o bloqueio é inofensivo. Cuba tem resistido e resistirá. Não estenderá jamais as suas mãos para pedir esmolas. Seguirá adiante com o rosto erguido, cooperando com os povos irmãos da América Latina e do Caribe, haja ou não Cúpulas das Américas, presida ou não Obama os Estados Unidos, um homem ou uma mulher, um cidadão branco ou negro.

http://www.correiobraziliense.com.br/html/sessao_4/2009/04/15/noticia_interna,id_sessao=4&id_noticia=98589/noticia_interna.shtml


6 de maio de 2009

MP 458 sela a contra-reforma agrária do governo Lula


Escrito por Ariovaldo Umbelino

O governo de Luiz Inácio da Silva abandonou definitivamente a reforma agrária como bandeira política em seu segundo mandato. O II Plano Nacional da Reforma Agrária (PNRA) acabou em 2007 e o governo não colocou na agenda política de 2008 a continuidade da reforma agrária através da elaboração do III PNRA. Dessa forma, retirou-a de suas metas políticas.

A análise dos cinco anos de vigência do II PNRA, entre 2003 e 2007, revela que, embora o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e o INCRA tenham divulgado o número oficial de 448.954 famílias assentadas, estes dados referem-se às Relações de Beneficiários emitidas (RBs). Portanto, desagregando-se estes resultados finais, a Meta 1 do II PNRA terminou com apenas 163 mil famílias referentes aos assentamentos novos, ou seja, a verdadeira reforma agrária.

Entre a diferença restante estão 113 mil famílias relativas à Meta 2, ou seja, a regularização fundiária. Estão também as 171 mil famílias enquadradas na reordenação fundiária, pois são fruto principalmente do reconhecimento de assentamentos antigos. E, por fim, estão também as 2 mil famílias de reassentamentos de atingidos por barragens, que jamais poderiam estar enquadrados como reforma agrária. Assim, o governo do PT termina o II PNRA cumprindo apenas 29,6% da Meta 1 estabelecida, de 550 mil famílias novas assentadas.

Além desses dados, o resultado de 2008 é muito mais baixo ainda, pois o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), entre as mais de 70 mil Relações de Beneficiários emitidas, assentou apenas 20 mil famílias novas relativas à reforma agrária. A diferença também ficou por conta da regularização fundiária (25 mil), reordenação fundiária (24,7 mil) e reassentamentos de atingidos por barragens (0,3 mil famílias). Dessa forma, analisando-se os dados relativos aos seis anos do governo atual verifica-se que foram assentadas apenas pouco mais de 180 mil famílias pela reforma agrária. Este baixo desempenho deriva da política deliberada do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA)/INCRA de não se fazer a reforma agrária prevista no II PNRA. Por isso mais de 150 mil famílias acampadas continuam debaixo das lonas pretas na beira das estradas do país.

Como todos sabem, a defesa da reforma agrária sempre foi uma importante bandeira do pensamento progressista e revolucionário, mas o silêncio de parte expressiva dos intelectuais parece indicar que ela foi arreada. Alguns, inclusive, têm se dedicado a produzir textos mostrando que a reforma agrária não é mais necessária historicamente.

Certamente, continuam não levando em consideração em suas análises a continuidade dos conflitos no campo que em 2008 envolveram mais de 500 mil famílias, como revelam os dados divulgados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT). Esta luta renhida pela terra e pelo território não se limitou apenas ao campesinato multifacetado do país, mas atingiu também fortemente os povos indígenas e os remanescentes de quilombolas.

Assim, volto a repetir, a política de reforma agrária do governo de Luís Inácio da Silva está marcada por dois princípios: não fazê-la nas áreas de domínio do agronegócio, e fazê-la apenas nas áreas onde ela possa "ajudar" o agronegócio. Ou seja, a reforma agrária está definitivamente acoplada à expansão do agronegócio no Brasil.

Este processo contraditório contém a posição governamental de continuar mentindo que está fazendo a reforma agrária, pois caiu sensivelmente o número de famílias novas assentadas nos últimos três anos: em 2006, foram 45 mil, em 2007, somente 31 mil, e em 2008, apenas 20 mil. E contém também a mudança de orientação política a partir de 2008, quando o governo optou pela regularização fundiária através da MP 422. Revela-se assim, de forma cada vez mais clara, a opção do governo do PT pela contra-reforma agrária. Esta opção está revelada por inteira na opção, no ano passado, pela legitimação das terras públicas apropriadas ilegalmente na Amazônia legal pelos grileiros médios com área até 1.5 mil hectares. E reforçou-se depois, em 2009, com a MP 458, que, de forma descarada, abriu a possibilidade para a aquisição das terras griladas até 2.5 mil hectares, dando preferência aos grileiros que as apropriaram ilegalmente.

A justificativa do governo atual para abraçar a legalização das terras públicas do INCRA na Amazônia legal traz uma farsa populista, pois afirmam que vão beneficiar os pequenos posseiros. Na realidade, os pequenos posseiros, que pela legislação atual já têm este direito constitucional da legitimação de suas posses, ocupam apenas 20% dessas terras. E mais, nos primeiros seis anos deste governo, o INCRA muito pouco fez para regularizar essas posses, pois atingiu apenas 17% da Meta 2 estabelecida no II PNRA.

Assim, a regularização fundiária vai beneficiar os grileiros do agronegócio que de forma ilegal apoderam-se das terras públicas do INCRA. E mais, esta opção revela que o INCRA não vai solicitar na justiça a reintegração de posse de suas terras griladas, como manda a legislação em vigor, mas vai tentar garantir as terras griladas para o agrobanditismo. É por isso que a violência continua na Amazônia legal.

Esta opção pela regularização da grilagem das terras públicas revela que o governo de Luiz Inácio da Silva está substituindo a política de reforma agrária pela política de regularização fundiária. Consolida-se dessa forma, mais uma vez, a vitória do agronegócio na questão agrária brasileira e a adesão definitiva da política agrária e fundiária do MDA/INCRA aos interesses do agrobanditismo, dos grileiros de terra públicas do INCRA e da reforma agrária na Amazônia Legal. As assinaturas pelo ministro do MDA e pelo presidente da República da MP 422 e da MP 458 refletem, pois, a consolidação da contra-reforma agrária do governo petista no segundo mandato.

Todos estes atos aparentemente legais revelam o "esforço" do MDA/INCRA em tentar, a todo custo, mudar a legislação para ampliar a área passível de regularização fundiária ou de alienação aos ocupantes ilegais das terras públicas sob sua responsabilidade. Esta adesão à regularização da grilagem revela-se nas notícias no site do INCRA: "agora eles [os grileiros] poderão comprar do governo federal as terras que já ocupavam há anos e não vão precisar concorrer com outros interessados" ("Assinada MP para regularização fundiária da Amazônia - Publicado em: 26/03/08" - http://www.incra.gov.br).

Estas ações de dilapidação do patrimônio público vão entregar para o agronegócio mais de 115 milhões hectares de terras públicas potencialmente devolutas e mais 67,8 milhões de hectares que, inclusive, são de propriedade do Incra e estão griladas. Deste total, a área ocupada pelos pequenos posseiros (284 mil) é de apenas 17 milhões de hectares. Portanto, é preciso continuar afirmando que o objetivo da política de contra-reforma agrária do governo de Luiz Inácio da Silva no segundo mandato é, na verdade, legalizar a grilagem de mais de 182 milhões de hectares de terras públicas e devolutas constitucionalmente da reforma agrária, dos povos indígenas, dos remanescentes de quilombolas e da proteção ambiental.

Ariovaldo Umbelino é professor titular de Geografia Agrária pela Universidade de São Paulo (USP). Estudioso dos movimentos sociais no campo e da agricultura brasileira, é autor, entre outros livros, de "Modo capitalista de produção (Ática, 1995)", "Agricultura camponesa no Brasil" (Contexto, 1997).

http://www.correiocidadania.com.br/content/view/3236/9/


Degeneração total dos valores


Escrito por Waldemar Rossi

Como é triste ouvir de alguém que deveria ser o exemplo da integridade moral defender a prática generalizada da corrupção! Foi lamentável ouvir o presidente da República dizer publicamente que é "hipocrisia" o debate sobre o festival de passagens aéreas para parentes e amigos com dinheiro público. Ainda mais que confessou o próprio crime ao afirmar que, quando deputado, cedeu passagens a que tinha direito como parlamentar para beneficiar amigos sindicalistas.

Assim, dá a entender que, como sempre houve corrupção, nada de anormalidade há nisso e todos podem praticá-la, inclusive ele. É bem um sinal de autodefesa. Sem dúvidas, esse debate é farisaico, pois seria difícil escapar algum parlamentar ou ministro, se houvesse uma verdadeira devassa e, por isso, tudo vai terminar em pizza novamente. O Lula foi "honesto" ao dizer o que pensa, mas praticou um crime de prevaricação e crime declarado.

Imagino como devem ter se sentido as pessoas corretas que o defendem com convicção, crendo que ele vinha agindo corretamente! Se somarmos mais essa a tudo o que vem fazendo nos seus mais de seis anos de governo - compra de votos de parlamentares, tolerância e defesa do mensalão, entrega de terras públicas para grandes grileiros, recebimento em larga escala de dinheiro de empresas envolvidas em escândalos para financiar sua campanha eleitoral, e as dos candidatos do partido etc. etc. etc.. –, veremos que a degeneração dos costumes sadios, patrimônio universal, se tornou geral na prática da política institucional.

A degeneração não pára por aí

Outra constatação – que, aliás, já vem de longo tempo – é em relação a um partido que continua se dizendo de esquerda e revolucionário, o PC do B. Foi com certa surpresa que assistimos à sua corrente sindical – a CTB (Central dos Trabalhadores do Brasil), ao lado de outras duas centrais (UGT e NCST) - promover mais uma divisão nas celebrações do 1º de maio (dia consagrado mundialmente à memória dos mártires da classe operária) com show. Ainda por cima, colocando Airton Senna no mesmo patamar de Santo Dias da Silva.

O primeiro, Senna, morreu num acidente de carro durante uma corrida da Fórmula 1, a serviço de uma empresa capitalista, a Willians, empresa do ramo do automobilismo e exploradora de trabalhadores. O segundo, Santo Dias da Silva, liderança sindical, assassinado durante a greve dos metalúrgicos de 1979, na porta de uma fábrica, pela polícia militar de Paulo Maluf, que governava a serviço do capital, portanto, mais um mártir da classe trabalhadora. Colocar os dois no mesmo patamar é enxovalhar a memória de milhões de mártires operários, inclusive comunistas convictos, que deram suas vidas em defesa da justiça social e de uma sociedade de igualdades, sem exploradores e sem explorados. Pior ainda é saber, pelo material fartamente distribuído, que os gastos com tal evento foram bancados por empresas como Casas Bahia, Telefônica, Furnas, Colombo - além dos bancos Bradesco, Santander, BVA, Itaú, BB, Caixa, BR-Petrobras.

Assim, explica-se que, para a abertura da exposição da Lottus (entre outras coisas pessoais de Airton Senna, dia 22 de abril), foram convidados autoridades, empresários, artistas e sindicalistas. Uma verdadeira aliança de classes, onde "sindicalistas" se igualam a empresários, espoliadores do trabalho alheio, em contradição marcante com a rica história de tantos Partidos Comunistas pelo mundo afora.

Tal fato também explica o porquê de tal virada, uma vez que muitos dos parlamentares do PC do B também se beneficiaram das benesses de empresas para suas campanhas eleitorais, inclusive de empresas denunciadas por corrupção, como a Camargo Corrêa, por exemplo. Quem se vende por R$ 1,00, mais facilmente se vende por milhares de reais.

Não seria mais sério mudar o enunciado do seu "C", trocando "Comunista" por "Capitalista"? Quem te viu... quem te vê!

Waldemar Rossi é metalúrgico aposentado e coordenador da Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo.

http://www.correiocidadania.com.br/content/view/3241/48/


A erosão do trabalho


Escrito por Ricardo Antunes

Este 1º de Maio nos leva a indagar: qual trabalho queremos para este tenso século 21 que mal está começando? “A RBEIT, LAVORO , travail, labour, trabajo.” Não há nenhum canto do mundo que não esteja vendo o desmoronar do trabalho. A atividade que nasceu sob o signo da contradição foi, desde o primeiro momento, um ato vital, capaz de plasmar a própria produção e a reprodução da vida humana, de criar cada vez mais bens materiais e simbólicos socialmente vitais e necessários. Mas trouxe consigo, desde os primórdios, o fardo, a marca do sofrimento, o traço da servidão, os meandros da sujeição.

Se o trabalho é um ato poiético, o momento da potência e a potência da criação, ele também encontra suas origens no “tripalium“, instrumento de punição e tortura.

Se, para Weber, o trabalho fora concebido como expressão de uma ética positiva em sintonia com o nascente mundo da mercadoria e o encanto dos negócios (negação do ócio), para Marx, ao contrário, o que principiara como uma atividade vital se converteu em um não valor gerador de outro valor, o de troca. Daí sua síntese cáustica: se pudessem, todos os trabalhadores fugiriam do trabalho como se foge de uma peste!

E a sociedade da mercadoria do século 20 se consolidou como a sociedade do trabalho. Desde o início, no microcosmo familiar, fomos educados para o labor. O sem-trabalho era expressão de pária social. Mas a mesma sociedade que se moldou pela formatação do trabalho se esgotou. Ele se reduz a cada dia -e de modo avassalador. Enquanto a população mundial cresce, ele mingua. Complexifica-se, é verdade, em vários setores, como nas tecnologias da informação e em outras áreas de ponta, e resta exangue em tantos outros.

Onde cresce avassaladoramente, como no telemarketing, produz um ser falante quase mudo, repetidor do trabalho prescrito, movido a pequenos “regalos” ao final de um dia extenuante, cujos minutos e segundos são contabilizados e controlados. Assim nos encontramos hoje: temos muito menos empregos para todos os que dele necessitam para sobreviver. Os que têm emprego trabalham muito, sob o sistema de “metas”, “competências”, “qualificações”, “empregabilidades” etc. E, depois de cumprirem direitinho o receituário, vivem a cada dia o risco e a iminência do não trabalho.

E isso não só nos estratos de base, onde estão os assalariados no chão da produção. Foi-se o dia em que os gestores, depois do corte, iam para suas casas com a garantia do trabalho preservado. Eles sabem que o corte deles se gesta enquanto eles laboram o talhe dos outros. Se vivêssemos em outro modo de produção e de vida, o tempo de trabalho poderia ser muito menor e mais afinado com o tempo de vida fora do trabalho, ambos dotados de sentido e fora dos constrangimentos do capital.

Mas, ao contrário, esses tempos se complementam em outro diapasão, com a casa se tornando espaço de trabalho adicional, e o tempo de vida fora do trabalho se vê cada vez mais encolhido e reduzido à esfera do que fazer para não perder a guerra quando o labor recomeçar no dia seguinte. A resultante é áspera e se conta na casa dos bilhões: aqueles que têm emprego trabalham muito, muitos já não mais encontram trabalho e outros fazem qualquer trabalho para tentar sobreviver com o que sobra da arquitetura societal da destruição. Em plena crise estrutural e sistêmica do capital, da Ásia à América Latina, da Europa à África, há uma nota tristemente confluente: como os assalariados que só dispõem de seu labor poderão sobreviver neste mundo sem trabalho e sem salário?

Dos EUA à China, de Portugal ao Canadá, da Inglaterra ao Japão, passando pelos tristes trópicos, novos recordes de desemprego são batidos todos os dias. Um incomensurável processo de corrosão e erosão se efetiva. Tal como foi desenvolvido ao longo do curto século 20, o trabalho tayloriano-fordista sofreu forte retração a partir dos anos 1970. Mas, com a intensificação desse quadro crítico, adentramos um novo ciclo de demolição do trabalho em escala global.

As diversas formas de “empreendedorismo”, “trabalho voluntário” e “trabalho atípico” oscilam frequentemente entre a intensificação do trabalho e sua autoexploração. Dormem sonhando com o novo “self-made man” e acordam com o pesadelo do desemprego. Empolgam-se pela falácia do empresário-de-si-mesmo, mas esbarram cada vez mais na ladeira da precarização.

Em volume assustador, uma massa de homens e mulheres torna-se supérflua, esparramando-se pelo mundo em busca de um labor que já não mais existe. Este 1º de Maio nos leva, então, a indagar: qual trabalho queremos para este tenso século 21 que mal está começando?


RICARDO LUIZ COLTRO ANTUNES, 56, é professor titular de sociologia do trabalho do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e autor, entre outros livros, de “Os Sentidos do Trabalho” e “Adeus ao Trabalho?”.

http://www.psolsc.org.br/noticias/outras-noticias/a-erosao-do-trabalho.html

4 de maio de 2009

Pacote Habitacional ou Pacote anti-crise?

Escrito por Willian Luiz da Conceição

A política habitacional do governo Lula não tem como objetivo final resolver o problema de moradia do país.

O pacote de habitação do governo Lula que propõe construir 1 milhão de casas até o final de 2010 é uma medida que está baseada na concessão do crédito. Isso retoma a preocupação com o ocorrido no sistema subprime estadunidense (empréstimos de alto risco que foram um dos fatores na atual crise econômica).

É a política de moradia mediada pela ambição dos bancos e empreiteiras, que inclusive já apresentou péssimos resultados em vários países. Além de que 91% da população que compõe o déficit habitacional brasileiro ganha entre zero e três salários mínimos e que serão os menos beneficiados pelo pacote, diferente da classe média. Além de moradia como mercadoria o governo do presidente Lula (PT) propõe com essa política de mercantilização de um direito constitucional de todos/as, a salvação do sistema bancário, construtoras e empreiteiras atingidas pela crise do capital. Tudo isso através da política de repasse de verba pública.

No Brasil possuímos gigantescos problemas agravados pela inexistência de políticas de uso do solo nas cidades e também da democratização do espaço agrário (falta de reforma agrária), o que expulsa milhares de pessoas do campo lançando-as as grandes cidades.

Não podemos resumir a política de habitação na limitação do crédito para os interesses das construtoras e do capital financeiro. O que temos realmente que pensar é aonde realizaremos essas casas. E qual o interesse que será priorizado? O coletivo ou privado? Por quê as pessoas precisam além da casa, necessitam de escola, trabalho, estrada, saneamento e saúde. Esse programa não viabiliza nada disso. Estamos perpetuando a precariedade e a favelização, sendo que 91% de pessoas sem casas, que estão na base do problema de moradia no país, precisam de investimentos diretos por parte dos governos para sair da situação de pura miséria em que se encontram. A faixa de famílias carentes serão beneficiadas com apenas 400 mil casas, tendo grande percentagem de casas (600 mil delas) para a classe média.

Política habitacional e democratização do espaço urbano é evitar reconstrução de novas favelas em torno das grandes cidades, onde as pessoas sejam jogadas, e sua única saída, para sobreviverem, seja o narcotráfico.

Em outros países onde essa política foi aplicada como EUA, México e Chile essas comunidades se tornaram grandes favelas, onde as pessoas não têm ruas, escolas, água encanada, esgoto, postos de saúde e trabalho. Precisamos transformar as favelas em bairros dando as devidas condições básicas.

Outra realidade que temos no país é o da especulação imobiliária nas grandes cidades. Nosso déficit habitacional é de 7,9 milhões de casas, sendo que nós temos 6,5 milhões de moradias vazios. Isso reflete que nosso problema não é produzir mais casas, mas sim garantir o acesso das famílias as residências que já existem e que não cumprem a função social da propriedade.

Aumentar a oferta de terra para a população pobre nas cidades é fundamental, principalmente em áreas que não cumprem sua função social. Essas áreas devem ser desapropriadas pelo poder público para construção de moradias populares e bairros. Nas cidades o crescimento desordenado e a falta de políticas sociais forçam as pessoas a ficarem a mercê do aluguel ou a ocuparem áreas sem as mínimas condições de vida como é o caso da ocupação do Juquiá. Por isso a política de crédito não resolve o problema da pobreza carente de habitação e sim o da classe média brasileira, banqueiros, empreiteiros e construtores.

Willian Luiz da Conceição é estudante de História, militante e presidente do PSOL Jonville


1 de maio de 2009

Com novas medidas urbanas, mercado imobiliário reinará absoluto nas cidades


Escrito por Valéria Nader


O caráter parcial, excludente e antidemocrático constitui-se em um modo conhecido na condução de nossa economia, política e sociedade - setores em que a proeminência desse modo tem sido bastante explorada pelos estudiosos mais críticos. Mas, nesse início de 2009, ele tem adquirido um sentido especial, diante de uma profusão de barbaridades no tratamento de nossas cidades.

Sim, de nossas cidades, o único espaço territorial concreto, aquele que a população enxerga, pisa, no qual tem a possibilidade real de perceber o que ocorre e de intervir em função de suas aspirações coletivas. No entanto, não é bem assim que acontece: a percepção e capacidade de intervenção das pessoas passam por variados filtros e bloqueios, obviamente associados aos poderosos interesses sempre em jogo em nosso país.

Em um ano de crise econômica internacional, e também nacional, agora já evidentes, tem ressaltado com maior destaque, entre as medidas anti-crise, o tão propagandeado plano habitacional do governo. Não raro esse plano vem sendo associado à realização de uma política habitacional e urbana da qual o país de longa data carece. Detendo-se, no entanto, um pouco mais nesse plano e, especialmente, em tantas e novas medidas que estão sendo tomadas no tocante à questão urbana neste ano, salta aos olhos aquele mesmo caráter extremadamente parcial, excludente e antidemocrático.

Pacote habitacional?

Vamos aos fatos. E, como primeiro exemplo, comecemos pelo de maior visibilidade: vem aí o citado novo plano habitacional do governo. Seriam necessárias muitas linhas para traçar aqui uma visão crítica mais elaborada desse plano, o que não é o objetivo. Mas pode-se apelar para a lógica imperante no país e para a percepção de estudiosos e leitores que buscam olhar a realidade com maior profundidade para trazer à superfície pelo menos um dos seus pontos mais obscuros.

O Estatuto da Cidade, que passou a existir a partir de 2001 – e, portanto, somente 13 anos após a determinação de regulamentação no uso da terra urbana pela Constituição de 1988 -, visa dar ao município os instrumentos políticos para enfrentar as dificuldades de acesso à terra pela população de baixa renda, combatendo a especulação imobiliária. Dentre estes instrumentos estão, por exemplo, o IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) progressivo e as ZEIS (Zona Especial de Interesse Social). Ocorre que os municípios ainda não conseguiram nem mesmo aplicar o Estatuto da Cidade. Não resolveram, destarte, a questão da função social da terra. Como conseqüência inelutável, a tão ansiada execução do novo plano habitacional tenderá novamente a concentrar a população mais pobre nas periferias, longe das áreas centrais e de sua infra-estrutura urbana, onerando o orçamento público e gerando novos problemas de urbanização.

Ademais, estamos diante de um plano de proporções inéditas. Se levado a cabo conforme o planejado, atingirá uma produção de larguíssima escala. A despeito, portanto, da ênfase oficial de que se trata de um plano cujo objetivo maior é a população de baixa renda - que realmente nunca teve acesso aos benefícios que estão sendo projetados -, será praticamente impossível evitar o protagonismo que deverá assumir o mercado imobiliário, o que terá impacto generalizado nas cidades.

Para uma visão mais aprofundada deste plano, o leitor pode acessar a entrevista que o urbanista e professor da FAU-USP João Whitaker concedeu recentemente ao Correio, sob o título Pacote Habitacional fracassará se não enfrentar questão da posse da terra.

Mas vamos além. Se o conhecimento das eventuais deficiências desse plano ainda é, de alguma forma, acessível ao público em geral, até pela própria notoriedade que ele alcança na grande mídia, o mesmo não se pode dizer de outras providências e medidas que vêm sendo tomadas na área urbana.

As novas taxas de ‘revitalização urbana’

Permanecendo ainda na esfera federal, algum leitor já ouviu, por exemplo, falar da Care? Obviamente que alguns devem saber do que se trata, mas, muito provavelmente, uma minoria. O que não dizer da população em geral, aquela que nem mesmo tem possibilidade de acesso à informação?

Por sugestão da Associação Comercial do Rio de Janeiro, trata-se de uma nova contribuição, a ser proposta ao Congresso pelo governo através de emenda à Constituição. A finalidade declarada seria custear a revitalização econômica de áreas urbanas centrais inquestionavelmente degradadas. Curiosa, no entanto, para dizer o mínimo, é a forma pela qual a contribuição será posta em ação: as prefeituras só poderiam instituir o tributo a pedido dos contribuintes que vão pagá-lo, quais sejam, os donos de imóveis não-residenciais interessados em bancar a revitalização de determinada área da cidade. Caberia exclusivamente a uma entidade sem fins lucrativos a ser criada, as chamadas Opres, Organizações privadas de revitalização econômica, propor às prefeituras a criação das áreas de revitalização econômica.

A idéia tem como justificativa o velho argumento fiscalista, da insuficiência de recursos públicos. Estaria, ademais, inspirada em experiências bem sucedidas em cidades do Canadá e Estados Unidos, segundo ressaltado por alguns dos maiores veículos de comunicação, como pretensa forma de conferir legitimidade a esta nova taxa.

Em um país que procede a tantas ‘apropriações indébitas’, especialmente na mimetização de padrões de consumo do primeiro mundo para as suas ‘ilhas de prosperidade’ locais, a arquiteta e urbanista Mariana Fix, autora do livro São Paulo Cidade Global: Fundamentos financeiros de uma miragem (para saber mais sobre o livro clique aqui), coloca essa contribuição em um lugar mais adequado. Para a urbanista, os Business Improvement Districts (BIDs) norte-americanos são um dos modelos que inspiram a criação dessas contribuições. O sistema surgiu nos Estados Unidos e permite aos empresários e proprietários, em determinados distritos, se organizarem para cobrar de si mesmos taxas para manutenção e melhoria de áreas públicas - o que acaba por ser um modo de assumirem o controle sobre elas, segundo a socióloga Sharon Zukin, professora da City University of New York, citada por Fix. E de experiências localizadas para resolverem carências específicas, os BIDs podem se generalizar como uma forma de gestão da cidade, com alto grau de controle privado sobre os espaços públicos.

Em uma total inversão de papéis, é, portanto, a própria redução de serviços públicos nessas regiões que passa a ser utilizada como justificativa para a implantação de formas empresariais de gestão, levando os governos locais a se alinharem com promotores imobiliários, e a assumirem uma gestão de tipo empresarial das cidades.

Kassab e as concessões urbanísticas

É a partir dessa mesma lógica perversa que devem ser tomadas e entendidas as novas iniciativas do prefeito Gilberto Kassab na maior cidade do país. Manchete do caderno Cotidiano da Folha de São Paulo de 19 de abril, "Lei emperra revitalização e ocupação na região central", não deixa dúvidas quanto aos poderosos interesses que já se articulam em torno do novo cartão de visita do prefeito em seu segundo mandato: a revitalização do centro, em substituição à Cidade Limpa do primeiro mandato. A sub-manchete deixa menos dúvidas ainda quanto aos grandes interessados: "Mercado reclama de excesso de exigências para liberar novos prédios residenciais".

Tudo começa por um processo de revisão altamente questionável do Plano Diretor da cidade - comprometendo, ao que parece, vastos setores de direitos sociais, como educação, saúde, assistência social, cultura, esportes, lazer etc., além de alterar de modo excludente a organização e crescimento dos bairros, onde algumas áreas deixariam de fazer parte das ZEIS (Zonas Especiais de Interesse Social), especialmente na região central da cidade. Mudanças que não contam sequer com uma discussão mínima com a sociedade, desrespeitando inclusive as próprias condições impostas pelo Estatuto da Cidade e pelo Plano Diretor anterior, de 2002, que previam a revisão apenas para 2012.

É na esteira deste processo que a Câmara dos vereadores de São Paulo já aprovou, no final de março, o projeto que autoriza a "terceirização" de áreas degradadas. Trata-se de uma concessão urbanística, que permite que a prefeitura transfira para a iniciativa privada, mediante licitação, o poder de realizar grandes intervenções em áreas decretadas como de interesse público, inclusive desapropriações, em nome do próprio poder público. O texto aprovado já inclui até mesmo a primeira região que sofrerá este tipo de intervenção, a Nova Luz, conhecida como Cracolândia.

A iniciativa foi saudada pela grande imprensa e pelo marketing oficial como bastante promissora, já que finalmente estaria rompendo com a inércia de tantos anos de falta de atitudes desse teor, prometendo não somente revitalizar áreas degradadas, mas dinamizar as economias locais e gerar empregos. Já se especula inclusive sobre o espraiamento do modelo para outras áreas como Mooca, Vila Leopoldina, Pirituba. Não é, no entanto, assim que pensam, mais uma vez, algumas das populações afetadas, como comerciantes tradicionais da rua Santa Ifigênia, que muito provavelmente deverão deixar seus locais de trabalho por pressões do setor imobiliário, e também vários dos estudiosos da questão urbana.

O urbanista João Whitaker faz crítica contundente à iniciativa, que vê como inconstitucional, por atender aos interesses de lucratividade de corporações privadas em detrimento do interesse social. E mais do que seu caráter inconstitucional, o urbanista ressalta uma escancarada e escandalosa escalada na priorização dos interesses privados relativamente às famosas Operações Urbanas, previstas no Plano Diretor de 2002.

Através destas operações, é permitida a construção de edifícios com área maior do que o limite originalmente estabelecido pela lei, desde que se pague por isso à prefeitura – e com o dinheiro arrecadado devendo ser destinado a melhorias urbanas na própria área. Elas já implicam, portanto, na submissão do planejamento urbano aos interesses do mercado. O que dizer então do novo mecanismo de "Concessão Urbanística", onde simplesmente se transfere ao mercado imobiliário a prerrogativa de desapropriar terrenos nas áreas em que pretenda investir? Para Whitaker, a resposta é simples: "na prática, a prefeitura está não só abdicando de sua prerrogativa de planejar a cidade, como está repassando tal função a grupos privados cujo interesse – o lucro – evidentemente está longe de ser público".

A conseqüência inexorável não poderá ser outra: um mercado imobiliário reinando absoluto na cidade. E mais: com muitas regalias aos escritórios internacionais de arquitetura, que deverão fazer "a ponte" com as "grandes incorporadoras locais dispostas a investir na região". Sob a alegação de "valorização de um bom produto" - segundo as próprias palavras do diretor de Desenvolvimento e Intervenção Urbana da Empresa Municipal de Urbanização (Emurb), Rubens Chamas, divulgadas pelo jornal Estado de S. Paulo no dia 23 de abril -, justifica-se a venda de trechos da cidade de São Paulo.

Uma perversa lógica econômica

O avassalador mergulho do Brasil no neoliberalismo, especialmente a partir da década de 90, teve obviamente suas conseqüências no tratamento de nossas cidades pelo poder público. O acirramento das medidas ‘terceirizadoras’, trazendo o setor privado para o centro das iniciativas, sob a falsa perspectiva de parceria inovadora e construtiva, está aí para comprovar.

No final de 2002, em artigo para o Correio da Cidadania na coluna Cidade Aberta (para ler o artigo, clique aqui), a urbanista Mariana Fix já alertava para o predomínio do sentimento de incapacidade do Estado em dar conta dos crescentes problemas urbanos em função da falta de recursos, o que estaria na origem das concessões urbanísticas. Fix fez aí o importante alerta de que "mais do que uma praça ou uma escultura, a ‘sociedade civil’ assume o protagonismo da produção e controle do espaço público. Surgem associações – ditas da ‘sociedade civil’ as essencialmente compostas por setores empresariais, especialmente bancos ou construtoras – com propostas que vão da instalação de um sistema privado de vigilância, até a abertura de bulevares, passando pela coleta seletiva do lixo, enterramento da fiação e retirada dos postes, alargamento das calçadas. Essas associações legitimam-se ao oferecer, às vezes de modo palpável, melhorias nos seus bairros – milagre da cidade de primeiro mundo em país de terceiro. Mesmo quando o controle que exercem, do desenho urbano à segurança privada, objetiva a exclusão e a segregação".

Neste sentido, enquanto tudo se faz passar como se as empresas prescindissem do Estado, o que ocorre na prática é que os investimentos privados são quase sempre irrelevantes perto dos recursos públicos investidos nas regiões sob intervenção, direcionando-os ademais para as regiões privilegiadas. "Pequenas iniciativas, acompanhadas de um bom marketing, criam a impressão de que as empresas assumem os custos, escamoteando o fato de que essas ações estão quase sempre associadas a grandes investimentos do Estado em infra-estrutura", enfatiza Fix.

Este recorrente apelo à abordagem fiscalista, justificando a participação da iniciativa privada em função da insuficiência orçamentária do governo, vem sendo paulatinamente posto em descrédito. Alertas dos estudiosos, bem como de movimentos como o Fórum Centro Vivo, em São Paulo, dentre muitos outros, ajudam na conscientização de que a centralidade do argumento da falta de recursos vem apenas acobertar um estabelecimento de prioridades altamente excludente das classes desfavorecidos.

Em um país em que as mazelas sociais são tão pronunciadas, sendo especialmente evidenciadas nas diversas localidades, não parece mesmo fácil, no entanto, fugir aos discursos ‘embelezadores’ e ‘salvacionistas’ e às saídas estéreis a que eles conduzem. Houve uma certa ‘esperança’, nos idos de 2002, de romper com esse ciclo pernóstico que enreda as nossas cidades. Criou-se o Ministério da Cidades, regulamentou-se também o Estatuto das Cidades, abrindo-se novas e promissoras idéias para tratar a questão urbana. Porém, temos uma persistente lógica econômica a nos presidir, que é o real nascedouro de tantos descaminhos e contradições, com suas respectivas conseqüências nocivas e hoje tão evidentes nas cidades, no campo, no meio ambiente.

Sem romper com esta lógica, para o que somente a pressão da sociedade poderá apresentar alguma saída atualmente, as nossas cidades continuarão sendo vitrines e palcos privilegiados na apresentação da degringolada social, ambiental e urbana.

Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania.