28 de janeiro de 2012

Sobre a Resolução do Encontro Nacional de Negros e Negras do PSOL

Lendo a Resolução do Encontro Nacional de Negros e Negras do PSOL (http://psoljoinville.blogspot.com/search/label/negros%20e%20negras) datado de 03 de setembro de 2011 em São Paulo, percebesse as limitações históricas dos partidos de esquerda em compreender as especificidades do racismo no Brasil. O documento apresenta uma importante, porém, já conhecida “estatística” da desigualdade entre brancos e negros, enfatiza ainda a influência da relação de gênero que acarretam as mulheres negras maior índice de vulnerabilidade econômica e social. Os dados [IBGE, DIESE entre outros] apresentam estas como as maiores vitimas da exclusão do Sistema Único de Saúde – SUS, assim como as mais vulneráveis as praticas que ameaçam a vida, isto relacionado a cor de sua pele. Entretanto, apresentar dados [já bastante conhecidos], não tornasse o partido como [se propõe] uma referencia para negros e negras na luta antirracista.

É necessário compreender as especificidades do racismo e do preconceito no Brasil, ele não se dá como mera extensão do sistema capitalista, como também não o é, o problema do machismo. Florestan Fernandes percebeu em seus estudos que ser branco e pobre no Brasil não é igual, a ser negro e pobre, poderíamos incluir ainda a questão de gênero na afirmação do mestre como as estatísticas comprovam há anos.

O Brasil se constitui como nação assentado no engendramento de um tipo engenhoso de racismo, tendo por base fatores estéticos como nos apresenta Oracy Nogueira quando compara os preconceitos no Brasil [marca] e nos Estados Unidos [origem]. No Brasil elegemos o mestiço [teoria do branqueamento] como valor do “povo brasileiro”, porém não sabemos o quanto o discurso normatizador que afirma “somos tod@s mestiços” é carregado de um processo institucional e intelectual de formulação da identidade nacional negando os problemas que advém da “inferioridade”, primeiro biológica como defendem médicos como Nina Rodrigues no século XIX, posteriormente como degeneração étnica, ou seja, cultural do negro [mesmo que esta em muitos momentos seja vangloriada, porém, isto se apresenta por meio do folclore], criando-se assim uma hierarquia em busca do ideal branco de nação, em que o mestiço é o primeiro passo. O Brasil possibilitou a inclusão de elementos da cultura negra à identidade nacional, retirando suas características de resistência como o samba, “desracializando-os”, despolitizou-os, passando de coisa de malandro e negativo, para ser positivado dentro de estruturas da mentalidade coletiva como alega Hermano Vianna em o Mistério do Samba.

O racismo e o preconceito no Brasil não só excluem negros e negras, mas possui um processo possível de inclusão social, este se apresenta acima de tudo como transfiguração cultural, ou seja, para subir socialmente estes são condicionados a deixarem partes constituintes de sua personalidade étnica.

Portanto, partidos de esquerda como o PSOL se não compreenderem algumas dessas especificidades e engendramentos do racismo no Brasil perderão a chance de apresentar-se como estrutura partidária na luta antirracista, não basta ter uma setorial, a luta no campo institucional é limitada, não basta leis, ela engendrasse no subterrâneo da realidade brasileira, na disputas simbólicas como afirma Abdias do Nascimento, está em nossos próprios poros. O primeiro passo é a compreensão dos mecanismos que constituem o racismo.


Willian Luiz da Conceição é acadêmico de História da UDESC e pesquisador do Núcleo de Estudos de Identidades e Relações Interétnicas NUER/UFSC.

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